Por que eu invento de pensar !?

Pensar sempre dói. Pensar sozinho dói ainda mais. Sendo impossível fugir de tal suplício mental, faço este Blog para não remoer solitário. Que seja instrumento para produzir e organizar melhor as idéias. Que motive a dura e, às vezes, solitária rotina de estudo e trabalho, a qual separa nossa utopia da realidade tão desejada. Que sirva para registrar e partilhar um pouco daquilo que eu faço, penso e sinto. Que reflita uma parte daquilo que eu sou e luto cotidianamente para ser.

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terça-feira, março 18, 2008

EDA-REMAR - 20 anos


A proposta de uma saudade


Agora, no último dia 11 de março, fizemos aniversário de 20 anos. Olhando para o passado, a garganta seca. É quando faço minhas, as palavras de um dos personagens de Maria Adelaide Amaral, na mais recente mini-série da Rede Globo, Queridos Amigos: “sinto uma saudade dilacerante do que fomos nós”.

Nós, que ainda podíamos ser conquistados por uma simples árvore desenhada a giz numa lousa da escola, formamos inicialmente uma sociedade de amigos com altíssimas pretensões: “transformar o mundo por dentro”. Éramos muitos, talvez mais de quarenta na primeira reunião. No final não mais que vinte, todavia, se não transformamos o mundo, nem a escola, nem o próprio movimento do qual fazíamos parte, dado que nossas estruturas e lideranças refletiam em demasia os vícios do tempo, começamos uma linda história de amizade e utopia.

O ideal de um audacioso processo de educação que desembocaria na formação de profissionais, homens e mulheres comprometidos com um mundo diferente foi abraçado em diferentes graus por cada pessoa, de acordo com sua história e possibilidades. De todo modo era um caminho sempre indicado pelos tijolos de ouro da amizade, que permitia uma marcha tão permeada de felicidade e prazer que talvez tenham sido estes mesmos os culpados de muito da acomodação da qual fomos, por vezes, acusados.

Com toda dificuldade natural aos processos que visam transformar estruturas, uma história foi sendo construída. Avançamos no campo de valores, idéias, processos, ações e utopias que foram disseminadas em mentes e corações. Líderes sucederam líderes, cada vez mais influenciados pela visão de uma sociedade e Igreja sonhada por um tal Leonardo Boff e por um Concílio chamado Vaticano II. Uma visão – é preciso dizer - já bastante turva, empalidecida pelo momento histórico e por ousar, paradoxalmente, acontecer no seio de uma juventude burguesa, de uma realidade financeiramente abastada. A idéia era construir pontes entre dois mundos.

Mas o fio de ouro da amizade, do prazer em simplesmente estar junto e a alegria de trabalhar ao lado dos companheiros, esta continuava a principal característica dos envolvidos naquela utopia. Não se guarde, por isso, a ilusão da unicidade de idéias e posicionamentos. Eles eram diversos e, por muitas vezes, fortemente divergentes, porém resolvidos num fantástico exercício precoce do jogo político.

A coesão gerada pelo afeto sincero, pela vivência da lealdade, conhecimento mútuo e respeito às diferenças, pela liderança compartilhada e consciência de objetivo, possibilitou ousadas estratégias de ação que se saiam vitoriosas em quase todas as investidas realizadas. Resultados positivos que geravam uma gradação enorme de sentimentos alheios. Estes iam da admiração e incentivo à raiva e inveja, passando pelas indagações estupefatas de como tudo aquilo se processava ou era possível: são apenas jovens!

Jovens que construíram uma micro-realidade dentro da qual se anulava, quase que por completo, o estado de natureza descrito por Hobbes. Mantiveram, por um tempo considerável, até não mais poderem, o seu próprio Leviatã, baseado na cooperação mútua, nas decisões discutidas exaustivamente, na argumentação política, na liderança multipolar e organização circular, no respeito à diversidade, na ação estratégica e, por fim, na amizade e na espiritualidade cristã encarnada na realidade do tempo.

Fora desse Arraial de Canudos, que, é claro, não poderia durar muito, dentro do território que estava, o mundo seguia sua lógica. Por vezes a falta de contato com essa realidade externa fez-nos ingênuos, cegos e vulneráveis aos seus perigos, inclusive no tocante ao nosso maior tesouro: a amizade. Lobos ferozes babavam a espreita, na esperança de destruir o que não lhes era dado participar, compreender e aceitar. Para meu espanto realizaram baixas significativas, mas nem de longe tocaram a essência, o coração.

Hoje, auto-exilado da forma inicial da nossa utopia batalho em campo estrangeiro. É necessário, porém, que eu esteja nesta frente. É a esperança de ampliação do nosso ideal em direção a águas mais profundas no seio da sociedade global que me faz suportar a dor de seguir “abrindo rotas onde não há”. Tal qual o slogan escolhido para os nossos 20 anos.

Enxergo a necessidade de pelo menos duas frentes de batalha para o momento, a re-fundação do nosso espaço-base mais ligado à Igreja, fonte e suporte de toda a captação e processo educativo do nosso movimento e a principal, porém, ao lado dela, pelo menos, a manutenção de uma rede de comunicação e solidariedade entre todos aqueles que estão dispersos pelos mais diversos ambientes sociais e projetos profissionais paralelos se faz necessária, afinal estes são sim a finalidade última do processo formativo do EDA-REMAR. E Isso até que nos seja permitido enxergar uma maneira de integrar mais profundamente os projetos de tais profissionais. Falo da manutenção de laços.

Lanço esta proposta, fundado numa realidade bastante pessoal: ao mesmo tempo em que a utopia do passado toma novas formas e avança rumo ao futuro, “sinto uma saudade dilacerante do que fomos nós”.

Saudade nem tanto do lugar físico, ele precisava ser deixado para trás, a fim de que viesse o chão real do mundo. Saudade nem tanto da velha utopia, aquela, como aliás já estava no script, tomou a forma de um novo projeto que nada mais é que ampliação e aperfeiçoamento do primeiro. Todavia, pergunto a Deus todos os dias, quando e se, poderei, novamente, algum dia possuir junto a mim amigos e companheiros de viagem tão afinados em um mesmo projeto de vida, e dessa vez junto a outras instituições da sociedade. Seria reviver o paraíso. Estudo todos os dias motivado por essa esperança.



quinta-feira, março 06, 2008

Quem me dera escrever um conto machadiano

Porque se repete o vergalho

Outra vez o estalar de açoite. O grupo de senhoras da sociedade carioca mal podia compreender aquela cena que aturdia o ar tranqüilo de seu costumeiro passeio vespertino pelo Campo da Aclamação.

Abrindo decidida um grande leque branco de renda francesa e estampada de tulipas vermelhas, dona Margarita Dorneles escondeu a metade inferior da face alvíssima e adornada pelas bochechas rosadas, inclinou o rosto à direita e para baixo, até alcançar certa proximidade com o ouvido de sua companhia mais próxima. Só então soltou a fala, fazendo-a escorregar lentamente pelo canto direito da boca, sem no entanto negar-se à expressão de espanto:

- Ora, por Deus! Veja-se aquilo acolá, dona Catarina Andrada! Pois se não é o Prudêncio, escravo forro do compadre Cubas, a vergalhar aquele outro preto pequeno, logo ali à frente do Theatro Constitucional.

- Aquele preto franzino, coitado, é o Giró. Prudêncio tomou o negrinho por seu quando não havia passado uma semana do dia que o doutor Cubas o mandou para fora de casa, presenteando-lhe com a carta de alforria e dois contos de réis – respondeu a jovem e bela dona Catarina Andrada, esbugalhando com perplexidade os olhos cor de esmeralda em direção ao Theatro no intento de avaliar a cena.

Dona Francisca Alves vinha uns três passos atrás da conversa, ao lado de dona Mariana Cruz e suas damas de companhia. Não obstante o peso do longo e suntuoso vestido de veludo azul cravejado de pequenos diamantes na curva do decote, com uma das mãos fez levantar-se do chão a barra da saia, de modo que venceu a distância que separava os dois grupos de senhoras com uma pressa interessada e acrescentou:

- Acaso vossas mercês não sabem?! Quem vendeu o pretinho Giró ao Prudêncio foi o coronel Cláudio Manuel Baptista. Disse-me ele, o senhor meu marido, que admoestou o comprador de que o negrinho franzino para nada serviria, tão indolente e raquítico que era. Mesmo assim, o forro com um sorriso estranho nos lábios aceitou pagar um conto e duzentos mil réis por ele.

As três elegantes e desocupadas senhoras da alta sociedade repousaram suas línguas, todavia apenas por uns instantes. Com as frontes enrugadas pela dúvida, elas repetiram várias vezes o mesmo movimento. Num segundo entreolhavam-se, no outro seguinte contemplavam a cena do vergalho que continuava errante pela Rua da Carioca, agora já em frente à Camisaria Progresso.

Enquanto o silêncio e os olhares recíprocos daquelas honradas damas isolava no espaço e no tempo um pequeno pedaço do Campo da Aclamação, principal ponto político e cultural da Capital Federal, um quente fim de tarde avermelhava o céu. Cerradas naquela clausura invisível e momentânea fitavam-se elas como a procurar, cada uma no semblante da outra, a resposta para um importante enigma: o que levaria um escravo recentemente alforriado a despender mais da metade da generosíssima e incomum oferta monetária de seu ex-senhor na compra de um negro sem valia? Seria por Prudêncio ter-se atinado e arrependido da asneira cometida que Giró recebia nas costas e com tanta força o vergalho?

Quem pôs as senhoras outra vez a escutar o arranhado dos bondinhos nos trilhos, o relincho dos cavalos que os puxavam, e todo o burburinho da gente que ia e vinha, foi dona Grinalda Bento Feitosa. A velha sempre mantivera o cuidado na conversa alheia, embora de outra parte tivera até aquele instante guardado certa distância. Arguta que era, esperava o momento oportuno para aproximar-se e revelar com orgulho velado às companheiras de passeio vespertino, as informações preciosas que detinha.

Desperto o interesse pela natureza das conjeturas que ouvira antes daquele silêncio abducente, dona Grinalda com os passos lentos e calculados surpreendeu o conclave. Tinha sempre os olhos fixos no próprio colo macio e protuberante sobre o qual se assentava um magnífico e reluzente colar de pérolas negras. Com uma das mãos passava em revista as contas da valiosa jóia, com a outra, quando em vez, apalpava pela fronte os bandós do cabelo muito liso e negro. Com a boca em direção ao passeio público quase sussurrou, como a revelar algo sem importância:

- Prudêncio quer o escravo franzino apenas e tão somente para aplicar-lhe o mesmo vergalho que um dia recebeu de Cubas, meu primo.

- Mas o doutor Cubas é um abolicionista convicto. Destes que apresenta discurso formado onde quer que se apresente. Como houvera de proceder de tal modo com Prudêncio? Não é verdade! Protestou de imediato dona Francisca Alves.

Dona Margarita arrematou dizendo que caso fosse verdade o que dissera dona Grinalda, faltava ainda a explicação de por que haveria o escravo forro de comportar-se com o franzino ao modo de seu ex-senhor, vítima que fora do mesmo sofrimento.

Àquelas novas perguntas, caro leitor, nenhuma das senhoras presentes à prestimosa reunião vespertina ousou responder com palavras. Apenas sorrisos pequenos de canto de boca revelavam que cada uma em seu coração atribuíra uma razão para aquela cena que continuava do outro lado do Campo da Aclamação a arrancar gargalhadas dos transeuntes:

- Não, perdão, meu senhor, perdão!
- Toma mais perdão, bêbado!