História
Parte I - O fenômeno e suas causas principais

A Inglaterra, no final do séc. XVIII, foi o cenário de uma grande revolução de caráter econômico, a qual se expandiu no século seguinte, principalmente para os EUA, França, Bélgica, Alemanha e Japão. Num primeiro momento, contudo, o fenômeno ficou restrito ao seu berço; certamente até 1830 e provavelmente até 1840, período no qual as artes e a literatura foram tomadas pela a ascensão da sociedade capitalista. “A Commédie Humaine de Balzac é o mais extraordinário monumento literário dessa ascensão” e a ela podemos acrescentar A Condição da Classe Trabalhadora na Inglaterra, obra de Engels.
Diferentemente da revolução de cunho político que ocorreu na França (1789), porém igualmente marcante e tão ou mais relevante para o homem que a invenção da agricultura e da cidade, a chamada Revolução Industrial traduziu-se numa profunda modificação dos processos e relações da produção, capacitando-a a avultar a níveis jamais vistos por qualquer sociedade anterior: a energia física transformou-se em energia mecânica, o trabalho da manufatura passou a ser feito em fábricas.
Aludimos, pois, ao fenômeno que o historiador Eric Hobsbawm descreve como sendo aquele no qual se desencadeou não uma simples expansão baseada numa maneira antiquada de produzir, mas a “criação de um sistema fabril mecanizado que, por sua vez, produz em quantidades tão grandes e a um custo tão rapidamente decrescente a ponto (...) de criar seu próprio mercado.
Enquanto esteve mais ou menos confinado ao território inglês o fenômeno vivenciou uma fase mais concorrencial, destacando-se o uso do ferro e do vapor e preponderando os setores têxtil, siderúrgico e agrícola. Quando da fase de sua difusão, sobreveio um período monopolista com grandes trustes e cartéis, principalmente nos EUA e Alemanha, caracterizado também pelo imperialismo neocolonialista e pela ampliação do uso do aço e da eletricidade.
É tarefa obscura demarcar um exato momento inicial ou mesmo outro de finalização para o evento de origem inglesa. Os estudiosos, quando muito, tentam situar com alguma precisão um ponto-de-virada, ocasião na qual a mentalidade industrial passou à dominância na formatação maciça da estrutura social.
O instante, denominado pelos economistas como “partida para o crescimento auto-sustentável”, é localizado pelos historiadores como ocorrido na década de 1780, quando “todos os índices estatísticos relevantes deram uma guinada repentina, brusca e quase vertical para a partida”.
Decorre, então e a priori, da caracterização desse período específico, o rótulo de revolução como “transformação rápida, fundamental e qualitativa”, que findou por contaminar e consagrar todo o conjunto do fenômeno dada a profundidade e o raio de alcance, no espaço e no tempo, das suas realizações e conseqüências.
Vale indagar, contudo, por que importantes atores do comércio ultramarino como Portugal e Países-Baixos, ou mais ainda a França, mais adiantada nas ciências naturais e sociais, não foram capazes de originar uma revolução desta natureza e envergadura?
O tear hidráulico, a bomba hidráulica, a locomotiva a vapor e, já no séc. XIX, o barco a vapor foram invenções que caracterizaram a Revolução Industrial, principalmente em sua primeira fase. Contudo, a Inglaterra, país comparativamente atrasado no sistema educacional, àquela época também ignorou a superioridade tecnológica e científica de seus contemporâneos e necessitou de “poucos refinamentos intelectuais para fazer a Revolução Industrial”, pois “nem mesmo sua máquina cientificamente mais sofisticada, a máquina a vapor rotativa de James Watt (1784) necessitava de mais conhecimentos de física do que os disponíveis então há um século”.
Para se ter uma exata idéia das circunstâncias “os alemães possuíam instituições de treinamento técnico” e “os franceses produziram inventos mais originais, como o tear de Jacquard (1804), enquanto Adam Smith - o pai do liberalismo, defensor da propriedade privada e autor da seminal obra, A Riqueza das Nações - estava ainda muito longe de superar, em reputação e status, fisiocratas franceses como Quesnay ou Turgot, por exemplo.
De toda sorte, para além das jazidas de carvão que o país possuía, do acúmulo de capitais decorrente da exploração de suas colônias americanas, em grande parte incrementado durante o período de Oliver Cromwell (1649-1653), o que contou de fato foi a existência consolidada, já no período que tratamos, do Estado Liberal Burguês emergido da Revolução Gloriosa (1685-1685), afinal “mais de um século já se passara (...) desde o lucro privado e o desenvolvimento econômico tinham sido aceitos como os supremos objetivos da política governamental”.
A resposta consiste principalmente no fato de que a Inglaterra abandonou a condição agrária feudal mais rapidamente que seus demais concorrentes. Tudo começou, portanto, no campo e as características do campesinato britânico eram distintas da versão russa, alemã ou francesa, por exemplo. Uma grande quantidade de pequenas propriedades rurais era cultivada por arrendatários com mentalidade comercial que assalariavam os camponeses e “as atividades agrícolas já estavam predominantemente dirigidas para o mercado; as manufaturas há muito se tinham disseminado por um interior não feudal”.
O campo já podia sustentar, com sua produção de alimentos, uma população citadina improdutiva do ponto de vista agrícola sem comprometer a geração de “um mecanismo de acúmulo de capital para ser empregado em setores mais modernos da economia”. De outra parte, graças aos Enclosure Acts - os Decretos das Cercas que apartou e destinou à pastagem grandes quantidades de terra – o meio rural já era capaz de liberar grande quantidade de mão-de-obra para a indústria.
Somando tudo a uma política estatal agressiva para obtenção de vantagens comerciais no plano internacional, e à obtenção paulatina do caro equipamento necessário para o crescimento econômico: uma frota mercante, facilidades portuárias, melhoria das estradas e vias navegáveis, foi, portanto, inevitável que “mais cedo ou mais tarde esta expansão tivesse empurrado o país através do portal que separa a economia pré-industrial da industrial”. Todo esse “crescimento econômico surge de um acúmulo de decisões de incontáveis empresários e investidores particulares: os homens de negócio.




