Por que eu invento de pensar !?

Pensar sempre dói. Pensar sozinho dói ainda mais. Sendo impossível fugir de tal suplício mental, faço este Blog para não remoer solitário. Que seja instrumento para produzir e organizar melhor as idéias. Que motive a dura e, às vezes, solitária rotina de estudo e trabalho, a qual separa nossa utopia da realidade tão desejada. Que sirva para registrar e partilhar um pouco daquilo que eu faço, penso e sinto. Que reflita uma parte daquilo que eu sou e luto cotidianamente para ser.

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quinta-feira, março 06, 2008

Quem me dera escrever um conto machadiano

Porque se repete o vergalho

Outra vez o estalar de açoite. O grupo de senhoras da sociedade carioca mal podia compreender aquela cena que aturdia o ar tranqüilo de seu costumeiro passeio vespertino pelo Campo da Aclamação.

Abrindo decidida um grande leque branco de renda francesa e estampada de tulipas vermelhas, dona Margarita Dorneles escondeu a metade inferior da face alvíssima e adornada pelas bochechas rosadas, inclinou o rosto à direita e para baixo, até alcançar certa proximidade com o ouvido de sua companhia mais próxima. Só então soltou a fala, fazendo-a escorregar lentamente pelo canto direito da boca, sem no entanto negar-se à expressão de espanto:

- Ora, por Deus! Veja-se aquilo acolá, dona Catarina Andrada! Pois se não é o Prudêncio, escravo forro do compadre Cubas, a vergalhar aquele outro preto pequeno, logo ali à frente do Theatro Constitucional.

- Aquele preto franzino, coitado, é o Giró. Prudêncio tomou o negrinho por seu quando não havia passado uma semana do dia que o doutor Cubas o mandou para fora de casa, presenteando-lhe com a carta de alforria e dois contos de réis – respondeu a jovem e bela dona Catarina Andrada, esbugalhando com perplexidade os olhos cor de esmeralda em direção ao Theatro no intento de avaliar a cena.

Dona Francisca Alves vinha uns três passos atrás da conversa, ao lado de dona Mariana Cruz e suas damas de companhia. Não obstante o peso do longo e suntuoso vestido de veludo azul cravejado de pequenos diamantes na curva do decote, com uma das mãos fez levantar-se do chão a barra da saia, de modo que venceu a distância que separava os dois grupos de senhoras com uma pressa interessada e acrescentou:

- Acaso vossas mercês não sabem?! Quem vendeu o pretinho Giró ao Prudêncio foi o coronel Cláudio Manuel Baptista. Disse-me ele, o senhor meu marido, que admoestou o comprador de que o negrinho franzino para nada serviria, tão indolente e raquítico que era. Mesmo assim, o forro com um sorriso estranho nos lábios aceitou pagar um conto e duzentos mil réis por ele.

As três elegantes e desocupadas senhoras da alta sociedade repousaram suas línguas, todavia apenas por uns instantes. Com as frontes enrugadas pela dúvida, elas repetiram várias vezes o mesmo movimento. Num segundo entreolhavam-se, no outro seguinte contemplavam a cena do vergalho que continuava errante pela Rua da Carioca, agora já em frente à Camisaria Progresso.

Enquanto o silêncio e os olhares recíprocos daquelas honradas damas isolava no espaço e no tempo um pequeno pedaço do Campo da Aclamação, principal ponto político e cultural da Capital Federal, um quente fim de tarde avermelhava o céu. Cerradas naquela clausura invisível e momentânea fitavam-se elas como a procurar, cada uma no semblante da outra, a resposta para um importante enigma: o que levaria um escravo recentemente alforriado a despender mais da metade da generosíssima e incomum oferta monetária de seu ex-senhor na compra de um negro sem valia? Seria por Prudêncio ter-se atinado e arrependido da asneira cometida que Giró recebia nas costas e com tanta força o vergalho?

Quem pôs as senhoras outra vez a escutar o arranhado dos bondinhos nos trilhos, o relincho dos cavalos que os puxavam, e todo o burburinho da gente que ia e vinha, foi dona Grinalda Bento Feitosa. A velha sempre mantivera o cuidado na conversa alheia, embora de outra parte tivera até aquele instante guardado certa distância. Arguta que era, esperava o momento oportuno para aproximar-se e revelar com orgulho velado às companheiras de passeio vespertino, as informações preciosas que detinha.

Desperto o interesse pela natureza das conjeturas que ouvira antes daquele silêncio abducente, dona Grinalda com os passos lentos e calculados surpreendeu o conclave. Tinha sempre os olhos fixos no próprio colo macio e protuberante sobre o qual se assentava um magnífico e reluzente colar de pérolas negras. Com uma das mãos passava em revista as contas da valiosa jóia, com a outra, quando em vez, apalpava pela fronte os bandós do cabelo muito liso e negro. Com a boca em direção ao passeio público quase sussurrou, como a revelar algo sem importância:

- Prudêncio quer o escravo franzino apenas e tão somente para aplicar-lhe o mesmo vergalho que um dia recebeu de Cubas, meu primo.

- Mas o doutor Cubas é um abolicionista convicto. Destes que apresenta discurso formado onde quer que se apresente. Como houvera de proceder de tal modo com Prudêncio? Não é verdade! Protestou de imediato dona Francisca Alves.

Dona Margarita arrematou dizendo que caso fosse verdade o que dissera dona Grinalda, faltava ainda a explicação de por que haveria o escravo forro de comportar-se com o franzino ao modo de seu ex-senhor, vítima que fora do mesmo sofrimento.

Àquelas novas perguntas, caro leitor, nenhuma das senhoras presentes à prestimosa reunião vespertina ousou responder com palavras. Apenas sorrisos pequenos de canto de boca revelavam que cada uma em seu coração atribuíra uma razão para aquela cena que continuava do outro lado do Campo da Aclamação a arrancar gargalhadas dos transeuntes:

- Não, perdão, meu senhor, perdão!
- Toma mais perdão, bêbado!