Começando por justificar...
ou
Para entender os fatos
e aliviar a dor
É curioso observar a vida em sua misteriosa e dinâmica sucessão de cenários. Vale o esforço de considerar com atenção essa perspectiva, sempre renovada pelo seu constante crescimento, redesenhada no espaço do tempo pelo acréscimo dos novos acontecimentos.
Nela, o que hoje nos parece sólido pode ir-se desmanchando lentamente no ar. Nosso maior orgulho está sujeito a desaparecer, feito aquela água de mar que se evapora, represada nos tanques das salinas. Substância sagrada que se vai dia após dia, sob a agonia do sol escaldante, deixando para trás um solo triste e lunar, onde a alegria do verde não viceja.
Será que os sonhos, os ideais e o amor morrem por si, depois de passados seus prazos de validade? Ou tornaram-se vítimas deste tempo insano?
Sucumbiram pelo medo? Ou foram eles assassinados por nossa vontade insegura e hesitante?
Veleidade...
Capitularam por causa de ordinárias e recônditas motivações? Ou cederam à nossa face obscura, doente, que ainda nos controla com ferro e fogo, assusta e afugenta?
Neste suposto crime, a culpa foi da imaturidade, comum aos jovens aprendizes?
O delito foi provocado pela simples armadilha da ingenuidade de quem ainda desconhece a si e às esparrelas do mundo?
Permanece, de outro lado, a probabilidade de ter agido sorrateiro o egoísmo consciente. Aquele calculado astutamente para aproveitar-se da fragilidade de quem confia. Sentimento nefasto e capaz de canalizar, sob o manto da desfaçatez espúria, a energia criativa alheia, para colocá-la a serviço de ambições pessoais dissimuladas ou da simples vaidade.
E se tudo foi feito pela mais justificada necessidade, quer na inocência, quer na sagacidade, os fins justificaram os meios? Ou teriam existido saídas mais coerentes para cada “Cheque-mate” colocado?
Eis um longo e intrincado conjunto de possibilidades que não se excluem entre si tão facilmente, da maneira que foi aqui explicitada, mas, de outro modo, podem apresentar-se simultaneamente e em desconhecidas proporções.
Eis uma espiral esdrúxula e sem fim, que girando velozmente, pare novos questionamentos na ordem de mil por segundo, causa tontura, confusão mental e mal-estar, em noites inteiras passadas às claras tentando decifrar "porques".
Muitas perguntas nascendo na cabeça, nenhuma certeza no coração, e um fato doloroso; ao mesmo tempo constatado lá fora e cá dentro, sob a mira de nossos olhos marejados.
Aqueles que se julgaram diferentes, arautos de outro tempo, foram à luta pelo novo usando as velhas armas. Caíram por terra porque ficaram iguais. Nivelação que não ocorreu da noite para o dia, mas lentamente e com uma justificativa racional na ponta da língua para cada deformação do ideal, do mesmo modo como foi tão bem descrito por George Orwell em A Revolução dos Bichos.
Bem a frente de nossas vistas pasmadas pela incredulidade, a amizade que deveria transformar o mundo por dentro foi sendo transmudada em mercadoria barata. Quinquilharia comprada, agora, a dois dinheiros por quem desdenhava, ontem, da abjeta banca de feira que a vendia.
Restou a solidão, o vazio, a decepção paralisante e um espanto de frustração. E junto deles ganhou força todo o séquito impiedoso de emoções primárias e conseqüências funestas que flutuam na órbita de cada um destes sentimentos: o medo, a culpa, a angústia, a ira, a revolta, o sentimento de vingança, o cansaço, a tristeza, o descrédito no belo, nas pessoas, nos valores que um dia foram perseguidos.
Sentimentos suicidas, os quais, hoje, reconhecemos e renunciamos porque,
em meio a todos os escombros desta cidade imaginária, subsistiu também, a possibilidade feliz de contar essa história para os filhos órfãos e famintos desta revolução que ficou na promessa.E a contaremos amparados na esperança revigorada de que ao escutá-la possam produzir, eles mesmos, um novo pão. Um outro alimento, totalmente original, mas transfigurado a partir do trigo vermelho e já podre de seus antepassados. Panacéia capaz de rejuvenecer-nos, desafiar-nos e entusiasmar-nos a todos, mais uma vez, na inescapável tarefa de "fazer acontecer".

