Por que eu invento de pensar !?

Pensar sempre dói. Pensar sozinho dói ainda mais. Sendo impossível fugir de tal suplício mental, faço este Blog para não remoer solitário. Que seja instrumento para produzir e organizar melhor as idéias. Que motive a dura e, às vezes, solitária rotina de estudo e trabalho, a qual separa nossa utopia da realidade tão desejada. Que sirva para registrar e partilhar um pouco daquilo que eu faço, penso e sinto. Que reflita uma parte daquilo que eu sou e luto cotidianamente para ser.

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segunda-feira, setembro 24, 2007

Começando por justificar...

ou

Para entender os fatos

e aliviar a dor

É curioso observar a vida em sua misteriosa e dinâmica sucessão de cenários. Vale o esforço de considerar com atenção essa perspectiva, sempre renovada pelo seu constante crescimento, redesenhada no espaço do tempo pelo acréscimo dos novos acontecimentos.


Nela, o que hoje nos parece sólido pode ir-se desmanchando lentamente no ar. Nosso maior orgulho está sujeito a desaparecer, feito aquela água de mar que se evapora, represada nos tanques das salinas. Substância sagrada que se vai dia após dia, sob a agonia do sol escaldante, deixando para trás um solo triste e lunar, onde a alegria do verde não viceja.


Será que os sonhos, os ideais e o amor morrem por si, depois de passados seus prazos de validade? Ou tornaram-se vítimas deste tempo insano?


Sucumbiram pelo medo? Ou foram eles assassinados por nossa vontade insegura e hesitante?

Veleidade...


Capitularam por causa de ordinárias e recônditas motivações? Ou cederam à nossa face obscura, doente, que ainda nos controla com ferro e fogo, assusta e afugenta?


Neste suposto crime, a culpa foi da imaturidade, comum aos jovens aprendizes?

O delito foi provocado pela simples armadilha da ingenuidade de quem ainda desconhece a si e às esparrelas do mundo?

Permanece, de outro lado, a probabilidade de ter agido sorrateiro o egoísmo consciente. Aquele calculado astutamente para aproveitar-se da fragilidade de quem confia. Sentimento nefasto e capaz de canalizar, sob o manto da desfaçatez espúria, a energia criativa alheia, para colocá-la a serviço de ambições pessoais dissimuladas ou da simples vaidade.


E se tudo foi feito pela mais justificada necessidade, quer na inocência, quer na sagacidade, os fins justificaram os meios? Ou teriam existido saídas mais coerentes para cada “Cheque-mate” colocado?


Eis um longo e intrincado conjunto de possibilidades que não se excluem entre si tão facilmente, da maneira que foi aqui explicitada, mas, de outro modo, podem apresentar-se simultaneamente e em desconhecidas proporções.

Eis uma espiral esdrúxula e sem fim, que girando velozmente, pare novos questionamentos na ordem de mil por segundo, causa tontura, confusão mental e mal-estar, em noites inteiras passadas às claras tentando decifrar "porques".

Muitas perguntas nascendo na cabeça, nenhuma certeza no coração, e um fato doloroso; ao mesmo tempo constatado lá fora e cá dentro, sob a mira de nossos olhos marejados.


Aqueles que se julgaram diferentes, arautos de outro tempo, foram à luta pelo novo usando as velhas armas. Caíram por terra porque ficaram iguais. Nivelação que não ocorreu da noite para o dia, mas lentamente e com uma justificativa racional na ponta da língua para cada deformação do ideal, do mesmo modo como foi tão bem descrito por George Orwell em A Revolução dos Bichos.

Bem a frente de nossas vistas pasmadas pela incredulidade, a amizade que deveria transformar o mundo por dentro foi sendo transmudada em mercadoria barata. Quinquilharia comprada, agora, a dois dinheiros por quem desdenhava, ontem, da abjeta banca de feira que a vendia.


Restou a solidão, o vazio, a decepção paralisante e um espanto de frustração. E junto deles ganhou força todo o séquito impiedoso de emoções primárias e conseqüências funestas que flutuam na órbita de cada um destes sentimentos: o medo, a culpa, a angústia, a ira, a revolta, o sentimento de vingança, o cansaço, a tristeza, o descrédito no belo, nas pessoas, nos valores que um dia foram perseguidos.

Sentimentos suicidas, os quais, hoje, reconhecemos e renunciamos porque, em meio a todos os escombros desta cidade imaginária, subsistiu também, a possibilidade feliz de contar essa história para os filhos órfãos e famintos desta revolução que ficou na promessa.

E a contaremos amparados na esperança revigorada de que ao escutá-la possam produzir, eles mesmos, um novo pão. Um outro alimento, totalmente original, mas transfigurado a partir do trigo vermelho e já podre de seus antepassados. Panacéia capaz de rejuvenecer-nos, desafiar-nos e entusiasmar-nos a todos, mais uma vez, na inescapável tarefa de "fazer acontecer".

segunda-feira, setembro 17, 2007

Do barro que fomos moldados:
o nativo da Terra do Pau-de-Tinta
Da obra de Gilberto Freyre
Resumo do capítulo segundo de Casa-Grande & senzala
Parte I
O ameríndio, encontrado pelos portugueses na “terra do pau-de-tinta ” do séc. XVI, foi elemento étnico que constituiu base para a formação da família brasileira, da economia e sociedade patriarcais que viriam a instalar-se no Brasil.
O colonizador lusitano encontrou nesta parte do continente sul-americano uma população bastante diferente nos hábitos e costumes, além de atrasada na técnica quando comparada àquela com a qual se depararam os espanhóis em sua área de exploração.

De modo geral, os indígenas brasileiros não faziam uso dos metais, eram nômades, coletores, caçadores e pescadores, possuindo agricultura restrita à cultura de alguns víveres como mandioca, cará, milho, jerimum, amendoim e mamão.

A simplicidade da arquitetura de suas habitações coletivas, grandes e quadrangulares, sustentadas por quatro caibros e cobertas de palha, difere em complexidade daquela produzida pelas semicivilizações dos Incas, Astecas e Maias, situadas ao norte da América do Sul e América Central.

Foi com esta população que o invasor, pouco numeroso, teve de contemporizar. No Brasil, o elemento europeu dominou no plano econômico e político, porém dependia do nativo nas esferas social e cultural, graças às condições geográficas e exigências da política colonizadora. Sozinho, aquele “sobejo de gente”, a que fora reduzido o povo lusitano depois da aventura da Índia, jamais obteria êxito na colonização de tão vasto e adverso território.

A miscigenação ocorrida na Península Ibérica com a invasão Árabe iniciada no século VIII (711), o surgimento dos moçárabes, dotou o povo lusitano de uma moral social mais flexível, bastante diferente da ortodoxia puritana dos colonizadores anglo-fônicos, esta que não lhes permitia contato sexual ou social com gente “inferior”.

Ajudados, pois, por esta característica, mas sobretudo, submetidos pela simples falta de alternativa, acuados pela escassez, desde logo, os portugueses trataram de misturar-se, fazendo da mulher nativa uma decisiva matriz multiplicadora de seus braços e pernas. Ao mesmo tempo em que se serviram dos nativos e nativas, também, para as necessidades de trabalho, para as guerras, conquista dos sertões e desbravamento do mato virgem.

Ainda segundo Gilberto Freyre, a sociedade brasileira, híbrida desde o princípio, se constituiu mais harmoniosamente quanto as relações de raça, dentro de um clima de quase reciprocidade, tendo formação diversa daquela observada nas repúblicas brancas ou brancaranas da Região do Prata e do Chile; do grupo de países representados pelo México e Peru; ou ainda, pela tríade do Paraguai, Haiti e República Dominicana, de acordo com a “fourfold division” proposta por Ruediger Bilden para apresentar as quatro diferentes condições de amalgamento de raça e cultura na América Latina.

Duas qualidades de moral sexual depararam-se em território tropical, uma católica, dura e repressora, a outra inocente, mais leve nos impedimentos, com as restrições de intercurso sexual assentadas em outras idéias, polígama, com distinta noção de consangüinidade e incesto.

Nesse encontro o ambiente de liberdade priápica foi de tal intensidade e descontrole que despertou o horror dos primeiros cronistas e padres da Companhia de Jesus. “As mulheres eram as primeiras a se entregaram aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham deuses”. Por outro lado, “a luxúria dos indivíduos, soltos sem família, no meio da indiada nua, vinha a servir a poderosas razões de Estado”.

A tentativa de controlar as heresias descritas pelos padres também tiveram o poder de flexibilizar as leis da “Santa e Madre Igreja” para o impedimento consangüíneo do matrimônio. Os padres procuraram regularizar muito da libertinagem através do casamento cristão: “a estas [sobrinhas] os padres casavam, agora, com seus tios, irmãos das mães, se as partes são contentes”.

A conseqüência dessa amálgama inicial foi “uma sociedade cristã na superestrutura, mas com a mulher indígena recém-batizada por esposa e mãe de família” introduzindo na cultura e vida domésticas muitas das tradições, experiências e utensílios do povo nativo”, tais como: o uso da rede, o conhecimento de sementes e raízes, uma série de alimentos ainda hoje em uso, drogas e remédios caseiros, tradições ligadas ao desenvolvimento da criança, um conjunto de utensílios de cozinha, processos de higiene tropical, entre outros.

Se a mulher índia foi amplificadora da força do branco colonizador, o homem nativo serviu de guia, canoeiro, guerreiro e pescador. Auxiliou o bandeirante mameluco na empresa desbravadora continente a dentro, alargando em sentido ocidental as fronteiras coloniais.

Seu pé nômade é que nunca permitiu às mãos fixarem-se à enxada, mas compensou essa “inutilidade” com esforço contínuo e estável no âmbito militar, fosse na defesa da colônia contra espanhóis e tribos inimigas dos portugueses, fosse na proteção da região açucareira, dos estabelecimentos agrários contra os ataques de piratas estrangeiros.

Somente a partir de meados do século XVI formou-se a primeira geração de mamelucos. Filhos que os pais cristãos pouco se importaram de educar ou criar à moda européia ou à sombra da Igreja. Meninos que cresceram à toa, pelo mato. Alguns tão ruivos e de pele tão clara.

Dessa numerosa progênie mestiça, muitos foram absorvidos pelas populações indígenas, outros se conservaram numa espécie de meio-termo entre a vida selvagem e a dos traficantes e piratas, um pouco sob a influência das naus francesas e das feitorias portuguesas. O fato é que os formados pelos primeiros coitos serviram apenas de calço ou forro para a grande sociedade híbrida e patriarcal que viria a constituir-se.

Intertextualidade pernambucana
De Gilberto a Nóbrega: Chegança
Sou Pataxó, sou Xavante e Cariri,
Ianonami, sou TupiGuarani, sou Carajá.
Sou Pancararu,Carijó, Tupinajé,
Potiguar, sou Caeté,Ful-ni-o, Tupinambá.
Depois que os mares dividiram os continentes quis ver terras diferentes.
Eu pensei: "vou procurar um mundo novo, lá depois do horizonte, levo a rede balançante pra no sol me espreguiçar".
Eu atraquei num porto muito seguro, céu azul, paz e ar puro... botei as pernas pro ar.
Logo sonhei que estava no paraíso, onde nem era preciso dormir para se sonhar. Mas de repente me acordei com a surpresa:uma esquadra portuguesa veio na praia atracar.
De grande-nau, um branco de barba escura, vestindo uma armadurame apontou pra me pegar.
E assustado dei um pulo da rede, pressenti a fome, a sede, eu pensei: "vão me acabar". Me levantei de borduna já na mão. Ai, senti no coração, o Brasil vai começar.
Sou Pataxó, sou Xavante e Cariri,
Ianonami, sou TupiGuarani, sou Carajá.
Sou Pancararu,Carijó, Tupinajé,
Potiguar, sou Caeté,Ful-ni-o, Tupinambá.