Do barro que fomos moldados:
o nativo da Terra do Pau-de-Tinta
Da obra de Gilberto Freyre
Resumo do capítulo segundo de Casa-Grande & senzala
Parte I
O ameríndio, encontrado pelos portugueses na “terra do pau-de-tinta ” do séc. XVI, foi elemento étnico que constituiu base para a formação da família brasileira, da economia e sociedade patriarcais que viriam a instalar-se no Brasil.
O colonizador lusitano encontrou nesta parte do continente sul-americano uma população bastante diferente nos hábitos e costumes, além de atrasada na técnica quando comparada àquela com a qual se depararam os espanhóis em sua área de exploração.
De modo geral, os indígenas brasileiros não faziam uso dos metais, eram nômades, coletores, caçadores e pescadores, possuindo agricultura restrita à cultura de alguns víveres como mandioca, cará, milho, jerimum, amendoim e mamão.
A simplicidade da arquitetura de suas habitações coletivas, grandes e quadrangulares, sustentadas por quatro caibros e cobertas de palha, difere em complexidade daquela produzida pelas semicivilizações dos Incas, Astecas e Maias, situadas ao norte da América do Sul e América Central.
Foi com esta população que o invasor, pouco numeroso, teve de contemporizar. No Brasil, o elemento europeu dominou no plano econômico e político, porém dependia do nativo nas esferas social e cultural, graças às condições geográficas e exigências da política colonizadora. Sozinho, aquele “sobejo de gente”, a que fora reduzido o povo lusitano depois da aventura da Índia, jamais obteria êxito na colonização de tão vasto e adverso território.
A miscigenação ocorrida na Península Ibérica com a invasão Árabe iniciada no século VIII (711), o surgimento dos moçárabes, dotou o povo lusitano de uma moral social mais flexível, bastante diferente da ortodoxia puritana dos colonizadores anglo-fônicos, esta que não lhes permitia contato sexual ou social com gente “inferior”.
Ajudados, pois, por esta característica, mas sobretudo, submetidos pela simples falta de alternativa, acuados pela escassez, desde logo, os portugueses trataram de misturar-se, fazendo da mulher nativa uma decisiva matriz multiplicadora de seus braços e pernas. Ao mesmo tempo em que se serviram dos nativos e nativas, também, para as necessidades de trabalho, para as guerras, conquista dos sertões e desbravamento do mato virgem.
Ainda segundo Gilberto Freyre, a sociedade brasileira, híbrida desde o princípio, se constituiu mais harmoniosamente quanto as relações de raça, dentro de um clima de quase reciprocidade, tendo formação diversa daquela observada nas repúblicas brancas ou brancaranas da Região do Prata e do Chile; do grupo de países representados pelo México e Peru; ou ainda, pela tríade do Paraguai, Haiti e República Dominicana, de acordo com a “fourfold division” proposta por Ruediger Bilden para apresentar as quatro diferentes condições de amalgamento de raça e cultura na América Latina.
Duas qualidades de moral sexual depararam-se em território tropical, uma católica, dura e repressora, a outra inocente, mais leve nos impedimentos, com as restrições de intercurso sexual assentadas em outras idéias, polígama, com distinta noção de consangüinidade e incesto.
Nesse encontro o ambiente de liberdade priápica foi de tal intensidade e descontrole que despertou o horror dos primeiros cronistas e padres da Companhia de Jesus. “As mulheres eram as primeiras a se entregaram aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas pernas desses que supunham deuses”. Por outro lado, “a luxúria dos indivíduos, soltos sem família, no meio da indiada nua, vinha a servir a poderosas razões de Estado”.
A tentativa de controlar as heresias descritas pelos padres também tiveram o poder de flexibilizar as leis da “Santa e Madre Igreja” para o impedimento consangüíneo do matrimônio. Os padres procuraram regularizar muito da libertinagem através do casamento cristão: “a estas [sobrinhas] os padres casavam, agora, com seus tios, irmãos das mães, se as partes são contentes”.
A conseqüência dessa amálgama inicial foi “uma sociedade cristã na superestrutura, mas com a mulher indígena recém-batizada por esposa e mãe de família” introduzindo na cultura e vida domésticas muitas das tradições, experiências e utensílios do povo nativo”, tais como: o uso da rede, o conhecimento de sementes e raízes, uma série de alimentos ainda hoje em uso, drogas e remédios caseiros, tradições ligadas ao desenvolvimento da criança, um conjunto de utensílios de cozinha, processos de higiene tropical, entre outros.
Se a mulher índia foi amplificadora da força do branco colonizador, o homem nativo serviu de guia, canoeiro, guerreiro e pescador. Auxiliou o bandeirante mameluco na empresa desbravadora continente a dentro, alargando em sentido ocidental as fronteiras coloniais.
Seu pé nômade é que nunca permitiu às mãos fixarem-se à enxada, mas compensou essa “inutilidade” com esforço contínuo e estável no âmbito militar, fosse na defesa da colônia contra espanhóis e tribos inimigas dos portugueses, fosse na proteção da região açucareira, dos estabelecimentos agrários contra os ataques de piratas estrangeiros.
Somente a partir de meados do século XVI formou-se a primeira geração de mamelucos. Filhos que os pais cristãos pouco se importaram de educar ou criar à moda européia ou à sombra da Igreja. Meninos que cresceram à toa, pelo mato. Alguns tão ruivos e de pele tão clara.
Dessa numerosa progênie mestiça, muitos foram absorvidos pelas populações indígenas, outros se conservaram numa espécie de meio-termo entre a vida selvagem e a dos traficantes e piratas, um pouco sob a influência das naus francesas e das feitorias portuguesas. O fato é que os formados pelos primeiros coitos serviram apenas de calço ou forro para a grande sociedade híbrida e patriarcal que viria a constituir-se.


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