Debate Histórico
Para além do Paraíso
Para avançarmos, decisivamente, na construção de um país desenvolvido, transformando esta terra em verdadeira pátria, mãe gentil, aquela que faz chegar a todos os seus filhos os largos frutos de seu chão, precisamos abandonar a visão do paraíso tropical, instalada no Brasil a partir do primeiro contato com o branco europeu, propagada desde então pelos primeiros cronistas como Pero Vaz de Caminha e reafirmada até hoje pelas telenovelas e pelo cancioneiro popular.
O desenvolvimento é filho do trabalho constante para a realização de um objetivo. A história está repleta de exemplos, seja de pessoas, seja de nações que superaram circunstâncias extremamente desfavoráveis, traçaram e alcançaram objetivos: o presidente Luís Inácio Lula da Silva, ex-retirante nordestino e ex-metalúrgico, a ministra Marina Silva, ex-empregada doméstica, o Japão, arrasado no pós II guerra, hoje, entre os países mais ricos do mundo, para ficar apenas com exemplos mais conhecidos ou notórios.
Por outro lado, objetivos são traçados - ou não - mediante uma determinada percepção da realidade. O modo como agimos no cotidiano e trabalhamos para atingir nossas metas – a atitude diante da vida – é também de imensurável importância e determinado pela nossa visão: a imagem mental que temos a cerca de algo e sobre tudo, o mapa cerebral que foi desenhado pela nossa educação, cultura, família, experiências e que inevitavelmente condiciona e limita nossos objetivos, atitudes, o nosso trabalho e ação.
Tais princípios podem ser aplicados na meta de desenvolvimento do nosso país, seja no plano individual - por cada cidadão que almeja ascensão social, melhora das condições de vida para si e para sua família - seja para as nossas instituições públicas e privadas. Uma nação é formada por seu povo e suas instituições.
Os avanços têm inegavelmente acontecido, porém, a visão de país partilhada pela maioria dos brasileiros ainda parece condicionada e restrita a certos elementos revelados nos versos da dançante canção popular de Jorge Benjor: “moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza/ Em fevereiro tem carnaval, tenho um fusca e um violão, sou Flamengo e tenho uma nêga chamada Tereza.
É a imagem da vida simples, desprovida de luxo e riquezas, mas livre da repressão sexual, alegre, viril e sensual. Porque rico precisa ser apenas o lugar, que “abençoado por Deus”, é repleto de belezas naturais, de terra vasta “em que se plantando tudo dá” , e os frutos da terra se oferecem sem a necessidade de muito esforço.
Para entender as conseqüências dessa visão, é preciso, antes, saber de onde vem essa concepção da nossa terra brasilis?
Quando os primeiros europeus atracaram por estas paragens, motivados pela fome do capitalismo comercial do séc. XVI, que os lançou à procura de ouro, prata, algo de útil para comerciar ou pelo menos na esperança de achar novas rotas comerciais mais lucrativas, seu olhar utilitário não pôde ignorar a existência, bem ali à sua frente, de um mundo novo e completamente diferente de tudo que já se havia visto. Uma realidade exótica e surpreendente, que de tão irredutível aos esquemas tradicionais desorientava-lhe as mentes. Todavia, logo nos primeiros contatos com o povo nativo a esperança de encontrar algo útil para o comércio deu lugar a decepção. Não havia ouro, prata, ninguém havia se deparado com nenhuma nova rota e dali se resgatava apenas “coisinhas de pouco valor”.
É-nos interessante observar que embora a decepção fosse, talvez, o mais forte sentimento entre aqueles que cá se encontravam na condição de enviados da Coroa Portuguesa, este não foi o aspecto mais destacado nas primeiras crônicas referentes ao Brasil. Os primeiros documentos a desenhar-nos uma imagem. Ressaltava-se antes, a descrição de um lugar exuberante, de “águas infindas” e fartura, um verdadeiro paraíso abaixo da linha do equador.
Acontece que os cronistas, jornalistas daquela época e circunstância, estavam – como, aliás, acontece até hoje - atendendo aos interesses da classe dominante. Para esta interessava resolver um problema que começava a se agigantar na Europa do séc. XVI: a cada vez mais volumosa horda de desafortunados e desvalidos dos benefícios e dos lucros do capitalismo comercial europeu, que expulsos do campo e atraídos para as cidades começavam a se configurar numa ameaça para a ordem vigente.
Segundo o professor Raymundo Faoro, os primeiros cronistas, dentre os quais se destacam Pero Vaz de caminha, Pero de Magalhães Gandavo, Pero Lopes de Souza, Colombo e Vespúcio, “insinuaram outro destino para esta terra” e criaram, a partir de suas descrições e crônicas, “uma visão dotada de rumo pensado, fermentada nos problemas de Portugal e da Europa”.
“Longe do caldeirão das cobiças há terras virgens habitadas por bons selvagens, onde a vida se oferece sem suor” e a liberdade é a lei e a autoridade. Homens e mulheres de corpos saudáveis andam nus tomados pela mais pura inocência. Apesar da vida simples, sem luxo, letras, ciência ou arte, não existe repressão sexual, as nativas são bem feitas e redondas. Qualquer um pode possuir terras vastas e escravos, para livre do trabalho sustentar dignamente sua família e possuir a vida aristocrática impossível na Europa.
Atraídos por esta visão vieram os primeiros estrangeiros que amalgamaram nosso povo. Muito dessa concepção de paraíso tropical permanece nas nossas mentes emperrando nossa evolução enquanto país.
Afinal qual é, ainda hoje, nossa relação com o trabalho? Trabalhar parece ser, ainda, para a maioria de nós, um fardo do qual devemos nos livrar logo que possível, transferindo nosso suor para outros, enquanto ostentamos ou fingimos um estilo de vida, ao qual muitas vezes, ainda, não podemos dar manutenção. Por que muitos empresários brasileiros não se lançam ou não se sustentam frente à competição no mercado mundial? Por que nossas instituições públicas estão repletas de pessoas sem competência para estar onde estão ? Muita delas, o máximo que conseguem fazer é desfilar vaidosas e sem elegância pelos corredores com as vestimentas referentes aos respectivos cargos e profissões, numa clara demonstração de ostentação de poder e inversão da importância entre expressão e conteúdo. Por que será que nossa elite iletrada continua a “macaquear” hábitos refinados sem terem com ele uma verdadeira intimidade ou conhecerem-lhe o fundamento, a finalidade?
Por que nosso povo mais simples, em sua maioria, não reconhece e luta de maneira mais organizada pelo o direito de ter acesso a uma vida mais confortável, com maior acessibilidade ao conhecimento, à cultura, à alta tecnologia, ao conforto, possuindo ambições mais altas? Por que temos tanta dificuldade em cumprir leis, chegando ao cúmulo de existirem por aqui aquelas que “pegam” e aquelas que “não pegam”? Por que a bunda da Carla Perez alcançou maior popularidade que a obra de Ariano Suassuna, algo que certamente não aconteceria na Noruega, por exemplo? Por que somos alvo do turismo sexual? Por que? Por que? Porquês...
Se meditarmos profundamente sobre tais questões chegaremos à conclusão que é tempo de elaborarmos uma nova percepção de nós mesmos e de nossa terra, calcada e planejada segundo interesses mais ambiciosos de criação de uma nação desenvolvida. Olhar nossa terra e nossa gente segundo um novo ponto de vista, para além do paraíso, nos fará trabalhar de modo diferente, colocando-nos mais comprometidamente no caminho que levará aos resultados que tanto sonhamos.


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