EDA-REMAR - 20 anos

A proposta de uma saudade
Agora, no último dia 11 de março, fizemos aniversário de 20 anos. Olhando para o passado, a garganta seca. É quando faço minhas, as palavras de um dos personagens de Maria Adelaide Amaral, na mais recente mini-série da Rede Globo, Queridos Amigos: “sinto uma saudade dilacerante do que fomos nós”.
Nós, que ainda podíamos ser conquistados por uma simples árvore desenhada a giz numa lousa da escola, formamos inicialmente uma sociedade de amigos com altíssimas pretensões: “transformar o mundo por dentro”. Éramos muitos, talvez mais de quarenta na primeira reunião. No final não mais que vinte, todavia, se não transformamos o mundo, nem a escola, nem o próprio movimento do qual fazíamos parte, dado que nossas estruturas e lideranças refletiam em demasia os vícios do tempo, começamos uma linda história de amizade e utopia.
O ideal de um audacioso processo de educação que desembocaria na formação de profissionais, homens e mulheres comprometidos com um mundo diferente foi abraçado em diferentes graus por cada pessoa, de acordo com sua história e possibilidades. De todo modo era um caminho sempre indicado pelos tijolos de ouro da amizade, que permitia uma marcha tão permeada de felicidade e prazer que talvez tenham sido estes mesmos os culpados de muito da acomodação da qual fomos, por vezes, acusados.
Com toda dificuldade natural aos processos que visam transformar estruturas, uma história foi sendo construída. Avançamos no campo de valores, idéias, processos, ações e utopias que foram disseminadas em mentes e corações. Líderes sucederam líderes, cada vez mais influenciados pela visão de uma sociedade e Igreja sonhada por um tal Leonardo Boff e por um Concílio chamado Vaticano II. Uma visão – é preciso dizer - já bastante turva, empalidecida pelo momento histórico e por ousar, paradoxalmente, acontecer no seio de uma juventude burguesa, de uma realidade financeiramente abastada. A idéia era construir pontes entre dois mundos.
Mas o fio de ouro da amizade, do prazer em simplesmente estar junto e a alegria de trabalhar ao lado dos companheiros, esta continuava a principal característica dos envolvidos naquela utopia. Não se guarde, por isso, a ilusão da unicidade de idéias e posicionamentos. Eles eram diversos e, por muitas vezes, fortemente divergentes, porém resolvidos num fantástico exercício precoce do jogo político.
A coesão gerada pelo afeto sincero, pela vivência da lealdade, conhecimento mútuo e respeito às diferenças, pela liderança compartilhada e consciência de objetivo, possibilitou ousadas estratégias de ação que se saiam vitoriosas em quase todas as investidas realizadas. Resultados positivos que geravam uma gradação enorme de sentimentos alheios. Estes iam da admiração e incentivo à raiva e inveja, passando pelas indagações estupefatas de como tudo aquilo se processava ou era possível: são apenas jovens!
Jovens que construíram uma micro-realidade dentro da qual se anulava, quase que por completo, o estado de natureza descrito por Hobbes. Mantiveram, por um tempo considerável, até não mais poderem, o seu próprio Leviatã, baseado na cooperação mútua, nas decisões discutidas exaustivamente, na argumentação política, na liderança multipolar e organização circular, no respeito à diversidade, na ação estratégica e, por fim, na amizade e na espiritualidade cristã encarnada na realidade do tempo.
Fora desse Arraial de Canudos, que, é claro, não poderia durar muito, dentro do território que estava, o mundo seguia sua lógica. Por vezes a falta de contato com essa realidade externa fez-nos ingênuos, cegos e vulneráveis aos seus perigos, inclusive no tocante ao nosso maior tesouro: a amizade. Lobos ferozes babavam a espreita, na esperança de destruir o que não lhes era dado participar, compreender e aceitar. Para meu espanto realizaram baixas significativas, mas nem de longe tocaram a essência, o coração.
Hoje, auto-exilado da forma inicial da nossa utopia batalho em campo estrangeiro. É necessário, porém, que eu esteja nesta frente. É a esperança de ampliação do nosso ideal em direção a águas mais profundas no seio da sociedade global que me faz suportar a dor de seguir “abrindo rotas onde não há”. Tal qual o slogan escolhido para os nossos 20 anos.
Enxergo a necessidade de pelo menos duas frentes de batalha para o momento, a re-fundação do nosso espaço-base mais ligado à Igreja, fonte e suporte de toda a captação e processo educativo do nosso movimento e a principal, porém, ao lado dela, pelo menos, a manutenção de uma rede de comunicação e solidariedade entre todos aqueles que estão dispersos pelos mais diversos ambientes sociais e projetos profissionais paralelos se faz necessária, afinal estes são sim a finalidade última do processo formativo do EDA-REMAR. E Isso até que nos seja permitido enxergar uma maneira de integrar mais profundamente os projetos de tais profissionais. Falo da manutenção de laços.
Lanço esta proposta, fundado numa realidade bastante pessoal: ao mesmo tempo em que a utopia do passado toma novas formas e avança rumo ao futuro, “sinto uma saudade dilacerante do que fomos nós”.
Saudade nem tanto do lugar físico, ele precisava ser deixado para trás, a fim de que viesse o chão real do mundo. Saudade nem tanto da velha utopia, aquela, como aliás já estava no script, tomou a forma de um novo projeto que nada mais é que ampliação e aperfeiçoamento do primeiro. Todavia, pergunto a Deus todos os dias, quando e se, poderei, novamente, algum dia possuir junto a mim amigos e companheiros de viagem tão afinados em um mesmo projeto de vida, e dessa vez junto a outras instituições da sociedade. Seria reviver o paraíso. Estudo todos os dias motivado por essa esperança.


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