Por que eu invento de pensar !?

Pensar sempre dói. Pensar sozinho dói ainda mais. Sendo impossível fugir de tal suplício mental, faço este Blog para não remoer solitário. Que seja instrumento para produzir e organizar melhor as idéias. Que motive a dura e, às vezes, solitária rotina de estudo e trabalho, a qual separa nossa utopia da realidade tão desejada. Que sirva para registrar e partilhar um pouco daquilo que eu faço, penso e sinto. Que reflita uma parte daquilo que eu sou e luto cotidianamente para ser.

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terça-feira, junho 13, 2006

Drogra! Por que eu invento de pensar!? A culpa foi da chuva e do Galvão Bueno

Hoje foi dia de Jogo do Brasil. Mas, ao contrário do que fez muita gente, não saí de casa. A não ser para deixar minha mãe no trabalho. Chovia muito na cidade do sol, ingrediente principal para fazer aparecer aquela aura de melancolia. Tempo para meter-se debaixo das cobertas e relaxar com o barulhinho bom da chuva, com as carícias dos respingos que saltam da janela.

Dirigindo de volta para casa, depois de deixar dona Luzimar no Míduei, ia percebendo, atordoado, uma euforia diferente solta pelas ruas. Havia algo no ar que não combinava com aquela chuvarada toda.

Lembram daquela seqüência de “Independence Day”, quando um militar acorda e sai tranqüilamente para buscar o jornal no jardim de casa, sendo surpreendido pela reviravolta na rua, até olhar para o céu e paralisar de espanto porque havia uma nave espacial pairando sobre a cidade ?

Ainda não estava bem acordado e, ao subir a vista com esforço, para observar as ruas pelas quais passava com o Celtinha, dava-me conta da existência de “energias incomuns” pairando sobre a cidade.
Então, lentamente, fui decodificando que aquilo era o éter da Copa do Mundo que estava no ar. Cujo gás da embriaguez chamava-se jogo-da-seleção-brasileira, que aconteceria logo mais às 16h, contra a Croácia, país nascido com o racha da antiga Iugoslávia.
Mas, ainda eram 10h! Pensei espantado. Ainda eram 10h e aquilo já estava assim?!
É o delírio das massas! A euforia da galera! A cidade verde-amarela em êxtase coletivo, conduzida pela overdose da Rede Globo! Rede Globoboboooo! Plim, plim! Viva Galvão Bueno! Ehhhhhhhhhh! Ouviram do Ipiranga ... Uhhhhh!
Garçom, mais uma rodada, aqui! Será que ainda tem bolha no pé do Ronaldinho!? Olha o carro do cara na TV! Quanto será que ele embolsou nesse comercial!? ... de um povo heroíco, o brado retumbante! Vai, vai! Agora! Uhhhhhhh! Ehhhhhhhh! Gooooooooooollllllllllll! Éeeeeeeee do Braaasilllllllllll!

Ufa!...Não!Era agitação demais! Decidi ficar em casa, parado. Amorfo de cara inchada, com preguiça de tomar banho e com a barba por fazer, debaixo da coberta quentinha e gostosa. Sem culpa!

Tudo para não contrastar e conflitar meu mau-humor com a "patriotada afoita" de plantão. Mas, exatamente ás 15h47 liga um amigo:

- Alô! Onde você vai assistir ao jogo? Não quer ir para casa de...?
- Não obrigado. Vou ficar em casa mesmo. Nada me tira da cama hoje!

Resultado: Fui chamado de doente. Quis ficar chateado, mas... pensando melhor, concordei. Eu era realmente um enfermo, disse para mim mesmo.

Aquela triste consciência, repentina e forte, causou instantes de agonia. Procurei desesperado o controle remoto perdido entre os lençóis e liguei rapidamente a TV em busca da cura. Tudo que eu precisava - estava convicto - era de uma dose de Galvão para melhorar meu dia. Uma injeção de emoção e “patriotismo” para melhorar meu dia.

Vi, através da telinha, que a chuva que caía em Natal, também lavou Salvador, mas, não impediu a parte do Olodum que não viajou à Alemanha de “pinotar” sorridente na principal ladeira do Pelourinho. O vale do Anhangabaú, onde estive há poucos dias, estava tomado pela multidão. E isso se repetia país afora, no Rio, em BH, no Recife... Espantoso!

Que belo o meu país!

A lágrima começou a rolar - sempre me emociono com o Brasil. Era a cura chegando. Só faltava tomar um banho, fazer a barba, vestir a camisa amarela e pegar a bandeira.

Resisti mais um pouco até escutar o Galvão nos presentear com uma informação importantíssima. Disse que o nosso time iria jogar com meias azuis. E emendou:

- Vocês sabem qual foi a última vez que o Brasil se apresentou com meias azuis em Copa do Mundo?

Parei, alguns segundos... Raciocinei.
Não! Não... não...não...não! Pare! É demais para o meu juízo! Gado é a mãe! Socorro!
Deixem-me enfermo! Doente, mau-humorado! Caso o preço seja consumir essa overdose de pseudo-patriotismo bestificante.

Desci a escada do mezanino. Fui para Internet e de lá acompanhei à distância o desenrolar da partida. Os fogos de artifício denunciaram o fim do jogo. Corri até a varanda da minha Torre de Marfim e contemplei mais uma vez, por alguns instantes, a cidade em festa.
Imaginei que além Natal, ali na minha frente, um país de dimensões continentais estava naquele momento inteiramente parado, focado numa única rede de TV.

Meu Deus que poder!

E se fosse possível construir uma mensagem capaz de transformar a realidade do nosso país, aquela era a hora certa de transmita-la!

Mas, ao contrário dessa hipotética e utópica panacéia da comunicação, falava-se em cores de meias e mostravam-se uniformes pendurados em cabides, dentro de vestiários vazios.
Sonhei com aquele poder de mobilização nacional aplicado à missão de varrer a corrupção do nosso mapa, a fome das nossas casas, o desemprego das nossas cidades, a violência das nossas ruas...

Imaginem comigo. Cento e oitenta milhões em ação. Num determinado período de tempo, correspondente ao da Copa, a Rede Globo nos acordaria bem cedo, às 4h30. Mas, não compareceríamos ao trabalho formalmente.

Sairíamos às ruas para, em mutirão, construir casas dignas e doa-las aos moradores das ruas. Construiríamos, também, escolas modernas, praças, parques, quadras de esporte e hospitais bem equipados, destinados ao excluídos da nossa Pátria Verde-amarela. Os chefes dos poderes executivos se encarregariam de liberar o dinheiro.

Os médicos e secretários de saúde se declarariam em assembléia, da qual só poderiam sair depois de terem achado um modelo de gestão eficiente para a saúde. O mesmo aconteceria com os professores.

Os ministros do supremo, desembargadores, juizes e advogados cuidariam de um plano para tornar a justiça rápida, eficiente e acessível. Os bancos teriam expedientes internos destinados a resolver o problema da distribuição de renda.

Pela tarde, sempre a partir das 16h, teríamos festas transmitidas ao vivo. Forró, Samba, Funk, Frevo, Rock.... As Multidões tomaria as quadras das escolas de samba no Rio, o Vale do Anhangabaú em São Paulo, o Largo do Pelourinho em Salvador, a praça do Marco Zero no Recife, a esplanada dos ministérios em Brasília...

Todas as cidades acompanhariam pela TV - eleito, por excelência, o mais poderoso instrumento de construção da cidadania - a revolução que teria libertado o país de mais de 500 anos de exploração do seu povo!

Quem coordenaria toda essa overdose de patriotismo, a exemplo do que acontece na Copa do Mundo, seria, obviamente, a Rede Globo de televisão, com todo seu batalhão de artistas e jornalistas, numa cobertura grandiosa e milionária: Wiliam Bonner, Fátima Bernardes, e é claro, Galvão Bueno. Viva Galvão! Viva!

Ufa! Que euforia!

Só uma explicação, se não ficou claro. Isso aqui não é devaneio utópico e romântico. É Ironia mesmo. Sarcasmo dos mais venenosos.

Mas... peço desculpas, humildemente e verdadeiramente, aos meus amigos se os atinjo com meu fel. Acho que foi a chuva que me deixou melancólico, mau-humorado. Não se assustem ou intimidem-se.

Convidem-me para os próximos jogos! Logo, eu esqueço todo esse discurso chato e pedante.

Não sou diferente de todos os brasileiros, adoro uma "fuzaca" e vocês sabem disso. Apenas aconteceu de, hoje, minha resistência à embriaguez ficar um pouco mais alta. Tudo que eu preciso é de uma dose mais forte de Galvão. Galvão na veia!!!

Até o próximo jogo!
Aqui em casa, na casa de vocês, ou em algum bar muito animado, com muita cachaça!

E viva Galvão Bueno! Viva!