Por que eu invento de pensar !?

Pensar sempre dói. Pensar sozinho dói ainda mais. Sendo impossível fugir de tal suplício mental, faço este Blog para não remoer solitário. Que seja instrumento para produzir e organizar melhor as idéias. Que motive a dura e, às vezes, solitária rotina de estudo e trabalho, a qual separa nossa utopia da realidade tão desejada. Que sirva para registrar e partilhar um pouco daquilo que eu faço, penso e sinto. Que reflita uma parte daquilo que eu sou e luto cotidianamente para ser.

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sábado, junho 03, 2006

Apenas um conto.Pura ficção. Qualquer semelhança será mera coincidência.Será?

O barulho era ensurdecedor. Bate-estacas, britadeiras, furadeiras, tratores, caminhões, escavadeiras e toda a sorte de parafernália pesada que serve para construir - ou destruir - estava em ação. Júlio, ainda jovem, já era um dos regentes dessa orquestra enfurecida. Gritava de lá. Conversava ao pé do ouvido com os homens da sua equipe e passava ordens aos outros empregados. Abria nervoso, uma centena de vezes, a pasta preta de couro que carregava, inseparável, debaixo do braço. Nela apontava, refletia, calculava e voltava a gesticular para os peões.

Para intervir naquele cenário grandioso e eufórico, esfuziante e transtornado, como se um meteoro tivesse deixado alí a sua marca, e um exército ensandecido tentasse dar conta de apagá-la, uma sirene gritou muitíssimo alto, estridente, irritante mesmo. E mais uma turma de engenheiros e operários estava pronta para assumir a obra de expansão da linha verde do metrô paulistano. Na cidade que não pára, uma ferida daquele porte não podia parar de cicatrizar. Mas, o dia e a semana de Júlio chegavam ao fim. Eram cinco da tarde de um sábado cinzento e frio de maio.


No primeiro instante que sucedeu àquele berrar insuportável, o jovem engenheiro afastou-se de todos e desligou-se do mundo. Pousou as mãos sob o queixo, apoiando os cotovelos num bloco de concreto que ficava na margem de um precipício gigantesco. Pareceu que o toque da sirene havia separado o corpo cansado da mente onisciente de Júlio, que agora podia flutuar livre, viajar tranqüila por entre as máquinas que continuavam, lá em baixo, o trabalho desesperado que nunca cessava.


Mas, o olhar do moço, solto no horizonte, grande e alheio, teve que, de súbito, se voltar para baixo. Preso à cintura, o celular toca: Cabeção chamando...
Júlio, numa fração de segundo, salta do transe em que havia se metido e atende alegre, falando alto como de costume:

- Brother!? Por onde você anda, heim!? É vivo ainda? Ou falo com o além!?
Do outro lado a voz saia quase sem modulação. Era reta, seca e contida.
- Entendo. Outra vez, Saulinho? Claro. Eu pego você em uma hora, em frente ao Cine Bela Artes, na Consolação.


Júlio corre até o galpão, abre o armário, veste o casaco, pega as chaves do carro, tranca a pasta preta e dispara no Uno vermelho pelas ruas cinzentas do Alto do Ipiranga, em direção à Av. Paulista. Na saída, atravessa uma multidão de homens sujos e suados. Seres falantes e serelepes. Agitados porque é sábado, e chegou a hora de encher a cara na esquina mais próxima, antes de chegar em casa e apagar na cama, para esquecer que a mega-cidade fez deles homens-tatu, construtores de túneis.

( continua ... )