Apenas um conto.Pura ficção. Qualquer semelhança será mera coincidência.Será?
O barulho era ensurdecedor. Bate-estacas, britadeiras, furadeiras, tratores, caminhões, escavadeiras e toda a sorte de parafernália pesada que serve para construir - ou destruir - estava em ação. Júlio, ainda jovem, já era um dos regentes dessa orquestra enfurecida. Gritava de lá. Conversava ao pé do ouvido com os homens da sua equipe e passava ordens aos outros empregados. Abria nervoso, uma centena de vezes, a pasta preta de couro que carregava, inseparável, debaixo do braço. Nela apontava, refletia, calculava e voltava a gesticular para os peões.
Para intervir naquele cenário grandioso e eufórico, esfuziante e transtornado, como se um meteoro tivesse deixado alí a sua marca, e um exército ensandecido tentasse dar conta de apagá-la, uma sirene gritou muitíssimo alto, estridente, irritante mesmo. E mais uma turma de engenheiros e operários estava pronta para assumir a obra de expansão da linha verde do metrô paulistano. Na cidade que não pára, uma ferida daquele porte não podia parar de cicatrizar. Mas, o dia e a semana de Júlio chegavam ao fim. Eram cinco da tarde de um sábado cinzento e frio de maio.
No primeiro instante que sucedeu àquele berrar insuportável, o jovem engenheiro afastou-se de todos e desligou-se do mundo. Pousou as mãos sob o queixo, apoiando os cotovelos num bloco de concreto que ficava na margem de um precipício gigantesco. Pareceu que o toque da sirene havia separado o corpo cansado da mente onisciente de Júlio, que agora podia flutuar livre, viajar tranqüila por entre as máquinas que continuavam, lá em baixo, o trabalho desesperado que nunca cessava.
Mas, o olhar do moço, solto no horizonte, grande e alheio, teve que, de súbito, se voltar para baixo. Preso à cintura, o celular toca: Cabeção chamando...
Júlio, numa fração de segundo, salta do transe em que havia se metido e atende alegre, falando alto como de costume:
- Brother!? Por onde você anda, heim!? É vivo ainda? Ou falo com o além!?
Do outro lado a voz saia quase sem modulação. Era reta, seca e contida.
- Entendo. Outra vez, Saulinho? Claro. Eu pego você em uma hora, em frente ao Cine Bela Artes, na Consolação.
Júlio corre até o galpão, abre o armário, veste o casaco, pega as chaves do carro, tranca a pasta preta e dispara no Uno vermelho pelas ruas cinzentas do Alto do Ipiranga, em direção à Av. Paulista. Na saída, atravessa uma multidão de homens sujos e suados. Seres falantes e serelepes. Agitados porque é sábado, e chegou a hora de encher a cara na esquina mais próxima, antes de chegar em casa e apagar na cama, para esquecer que a mega-cidade fez deles homens-tatu, construtores de túneis.
( continua ... )


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